Filme: Bem me quer, mal me quer. Foto: AdoroCinema



Toda essa sua altura é segurança, e sua beleza é desperdício; partilhe, então, comigo, parte desse encantamento e glória e me dê a chance de salvação. Abale meu mundo com suas escolhas onerosas, transforme-se e retribua os significados que te emprestei quando meu amor tinha cara de amor maior do mundo. E que eu consiga ser você sem mais amor por toda a vida. Porque me dói ser assim sem você.


Fotografia: Raimundo Neto

"O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos
outros. Às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas
comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão."

Clarice Lispector



Então é isso...

Fonte: Fundação Monsenhor Chaves


Divulgado resultado do Concurso Contos de Teresina. Em janeiro...e eu só soube agora...


"Divulgado o resultado do Concurso Contos de Teresina, promovido pela Prefeitura Municipal de Teresina, através da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, que premia os melhores autores com textos deste gênero tendo a cidade como referência.


O concurso foi aberto em junho e teve dezenas de inscritos, sendo que três foram premiados. De acordo com o parecer da comissão julgadora, em primeiro lugar ficou o conto "Redemoinho de emoções", de Ana Maria Quaresma; em segundo, ficou o conto "Quando a morte se chama Crispim", de Raimundo Nonato Lopes Neto; o terceiro colocado foi "O velho", de Célia Silva Forte.

O concurso tem a finalidade de incentivar a ambientação de contos na cidade, dando ênfase às manifestações culturais locais, a seu espaço físico ou à história do município. "




“Toda palavra tem a sua sombra.” Clarice Lispector

“É uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas

sem flores; uma coroa de folhas, mas sem viço.”

Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo



Heartland ou Lira dos 18 anos


Tua presença ensolarada de dezoito anos aconteceu para dissipar o nevoeiro carregado que fui antes de ti.

A única iniciativa que não tive foi de te acolher com abraços. Mas fiz o mínimo possível: apertei as pontas de teus dedos, pousei minhas pernas sobre o acalento de teu colo magano, cheirei a palma de tuas mãos, permiti sem culpa o dardejar dos meus beijos em teu rosto lividamente liberto de acréscimos preocupantes de homens que, como eu, carregam sem alívio a nódoa das desilusões e das reclamações sem fundamentos.

Vi, não entendo com quem olhos internos de homem permissivo, meu olhar acompanhar as minúcias dos teus movimentos, o escorrer lento de teus cabelos pelas laterais do rosto quieto, teus cílios desenhados enfeitando o piscar, dançando compassados ao som da lira que carrega nos olhos, com sinais não muito claros de que eu era uma possibilidade.

Eu faço parte de algum dos teus sonhos?

Eu disse Sim segurando as colunas que sustentavam o templo de tuas costas, decorando os detalhes de tua arquitetura jovem de pouco vigor - Se tivesses dito Sim, eu teria sustentado meu interesse sem restrições -, quase exigindo que te permitisses deitar e rolar sobre minha disponibilidade. Meu compromisso estava no fundo dos olhos, irreconhecível; e só teus olhos nus, livres, de sol a pino, profundamente maduros para uma existência de dezoito anos, poderiam resgatar em mim uma entrega suficiente, confortável, adequadamente resistente para quem ama enfrentando tempestades, para quem mastiga a paixão recente alimentando o corpo com uma fidelidade vitoriosa.

Não permiti a desobediência da língua, que se tornasse íntima de tuas profundidades e te tomasse a inocência, ou corrompesse teu querer, para não contaminar tua busca por um homem que não exige permanência para a vida toda. E foram oito sorrisos abertos, inúmeras encaradas solares, três gargalhadas imaculadas, cinco apertos de mão tão ardentes quanto determinados, e uma atenção serena, composta de concordância e placidez.

Encostou seu ouvido ao meu: Nossos mundos das palavras ouvidas estavam então próximos. E passaríamos a entender tudo um do outro.

O caminho até ti estava escuro; uma ventania alvoroçada de outros homens maiores, de bocas nervosas, aqueles tipos que trovejam mordendo os lábios, mostrando sua substância lasciva de criaturas que habitam inferninhos soturnos.

Eu só queria consertar meus desejos de salvação, meus cuidados, meus maneirismos exagerados com homens crescidos que pouco ligam para uma companhia de uma noite apenas, e terminei procurando vestígios da tua paixão, esperando que a brisa mansa e pacificadora soprada ao longo de teu horizonte revelasse algo mais que o despertar da tua juventude imperturbável e de nossa intimidade suspeita.

Há um receio monstruoso me perseguindo, fantasiado de sorriso amarelo: Talvez eu descubra então que as sombras de tuas asas não acolherão meu desassossego; que teus olhos ensolarados desabriguem por fim meu desespero. Era mentira que eu poderia livremente deixar minha tristeza borboletear sobre teus clichês néon? Minhas verdades tórridas rebolaram inseguras dentro de ti e me fizeram um ser menor. Tenho ideias truculentas a respeito do fim, temendo que ele seja gracioso demais pra alguém especialmente insatisfeito como eu.

Então...

Aceito tua busca, se entenderes os meus caminhos.

Acolho tua juventude, se couberem em ti minhas faltas.




Amor à Flor da Pele. Wong Kar-Wai, 2000. Foto: .adorocinema.

“O fato é que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmos, resultara na tentação e na esperança de um dia chegar ao máximo. Mas que máximo? (...) Procuravam-se cansados, expectantes, forçando uma continuação da compreensão inicial e casual que nunca se repetira – e sem nem ao menos se amarem.”

Clarice Lispector, p.123, A Mensagem.

“Tudo o que se passou entre os dois eventos nada mais foi que um tatear no escuro, uma série de erros crassos, falsos rudimentos de alegria. Tudo o que tinham em comum os unia num único episódio.”

Nabokov, Lolita pág.41

“E corava pouco a pouco até ficar bem vermelha, como se em dez minutos passasse por seu rosto uma tarde de sol. A um palmo de distância dela, eu era o maior homem do mundo, eu era o sol.”

Chico Buarque, Leite derramado, pág. 46


Terceira pessoa: quando eles se confundem.


O coração sofria morno quando ele veio lançar-lhe sua desmesura: Encontrei em você o que eu estava procurando. Com os olhos fechados arriscou-se então, e as palavras vieram renovadas de seu último relacionamento, apuradas pelo desejo por uma semelhança, seu oásis em tempos desérticos, um acalento, uma angústia corada que o fizesse querer sempre mais, nunca menos.

O mesmo coração que recebera a declaração, agora fritando em esperança, deslocou-se afoito rumo ao juízo, a fim de desorientá-lo, provocá-lo para o sim: Sim, eu quero, eu devo, preciso entregar-me do começo ao fim, e se doer que seja o dia todo; se sangrar, que a madrugada ansiosa do meu exagero urgente esconda o horror das minhas expressões de paixão descoberta.

Ele foi prático quanto aos discursos sobre seu amor, plástico nas frases de efeito; descobriu a possibilidade de um sofrimento sem cortes profundos. Revelou para a família seu agrado, carregou carinho recente para que os amigos conhecessem o que o tornava outra vez devidamente dedicado: O que ele tem de melhor é o que eu esperava. O compromisso firmou-se no toque; sem enormidades o interesse derramava-se com voracidade, aplacando o que era para aplacar, pronunciando tudo o que era vontade, mas quase insuportável.

As palavras davam-se as mãos, e de minuto a minuto se abraçavam: É tão bom conversar contigo, sabia? Explanavam sobre livros, autores que os aproximavam de conteúdos assustadores, autores que os libertavam para a procura, cineastas que acentuavam a intensidade. Seus planos também enroscaram alguns dedos, lamberam-se um pouco, quase submissos e higiênicos: Vou levar você comigo.

O outro transparecia sentimentos rubros e austeridade: Alguém já disse que você é pra casar?. Um questionamento estreito, rápido, estrangeiro, que fez aquele outro cair mil vezes dentro da mesma certeza rutilante de quando se viram pela primeira vez: Eu não conseguia ouvir nada; o barulho de uma criatura de centenas de bocas em escândalo impedia tuas revelações. Só pude agarrar-me a teus olhos me pedindo pra voltar, ficar, confiar nas tuas explicações, nos teus atos investigativos sobre meu passado, meus interesses, minhas poéticas ridicularias virtuais.

Iniciou-se a ostentação feliz de um atual envolvimento. O outro esteve com os olhos graves, evitando a ofensiva desrespeitosa dos bichos ariscos que se assemelhavam a homens de dentes cáusticos.

Quase por vergonha o outro deixou de dizer sim. De abraçar sem pudor, de permitir também quase incrédulo o sentimento nunca experimentado, aquela brasa emergente, tudo que se firmava concreto e pungente nele tornou-se de outra natureza. O que vinha do homem o intoxicou irremediavelmente: Tão parecidos, como pode? Estamos na mesma frequência e vibrando. O que pode acontecer além de dar errado? Sinto o gosto da expectativa ferida. Escreva no meu corpo seu dia-a-dia. Acho que não aguentaria quinze dias sem segurar teu coração limpo de traição e maldade nas mãos. Posso visitar teu cotidiano quando a tristeza estiver me engolindo?

Mas o outro se revelou irresponsavelmente. Os olhos do homem derretiam angustiados; o receio de não suportar. Os problemas do outro enchiam a boca dele de areia fina. Faltava o sol se pondo, convidando estrelas para detalhar o começo de um novo encontro, e a brisa extrema e suave, um afago da vida, e a imensidão alargada de um mar feliz. Mas o outro não sabia criar pequenos universos assim. Não escondia seu interesse, e não sabia inventar a paixão.

Talvez não fosse mesmo um início prudente e ameno; talvez houvesse algo mais a se buscar, que poderia ser encontrado em outro homem, um passado que voltasse e o abraçasse com carinhos acostumados e um desassossego cheio de muito sentido, ou um futuro realmente surpreendente. Porque o novo outro, que o habitava agora, não era mais surpresa, e o seu brilho morreu assim: pa-puf.

O outro era como todos os outros. Como quase todos os outros. Afinidades inventadas, com aquele querer que faz sombra e não queima as relevâncias. O homem queria as tempestades solares do amor repetido de uma vida toda, que um dia viveu. O outro não sabia como fazer pra cuspir fogo, encher a boca de álcool e apimentar a relação com desconfiança e a chama do ciúme.

Seus corpos dialogavam cheios de aproximações, falando quase a mesma língua; partes acrômicas de si quando precisam ser discretos. As dores do outro espalhadas pelo plexo solar e lobo frontal. Já o homem descascava quando pequenas ameaças surgiam para comprometer seu bom futuro.

O homem vivia a injúria escarlate de quem está perdendo o controle. O corpo com pedaços encarnados, enciumado de ter outro por perto capaz de atenção suficiente e um querer ajustável. Porque ciúme é isso: querer mais do que se tem. Camadas delgadas, aspectos avermelhados, róseos ou acerejados -lindamente translúcidos e doces como cereja em caldas (o corpo de um deles se confundia com cor e sabor) - de algo crônico que apresenta recidivas, erupções de um conteúdo que só poderia ser imenso, comprometedor, importante, um rubor congestivo que só precisava de honestidade e bons tratos para desaparecer por uns tempos.

E enquanto o outro se arrepiava, os pelos hasteando a bandeira da intenção revelada, o corpo psoríaco do homem mostrava seu enrubescimento impetuoso que precisava de cuidados: Eu, que nunca esperei acompanhar o florescer de uma cerejeira, entusiasmava-me com a presença fragrante daquele surgimento rosicler, esperando o flanar pacificado das pétalas que desistiriam da beleza rosácea e orgânica daquele homem do qual, dali alguns dias, eu colheria arrebatado os frutos cálidos da entrega sublime.

Seu corpo se dedicava em porções, do máximo ao mínimo, e o outro poderia ter percebido o fenômeno antes, ter avançado nos níveis do homem, um a um, antes do fim, arrancando todas as suas coberturas, até chegar próximo a algum conteúdo que garantisse algo duradouro; o núcleo de segurança, desistências, aquela verdade de cada dia, que se transforma e se adequa; entender que medo o perturbava, qual pedaço de si pacificaria a escolha do homem. O outro deveria tê-lo desmanchado por completo até ter nas mãos a certeza que hoje possui assustado: que findaria antes do começo.

A potência sem escrúpulos da iniciativa do outro deveria ter demolido a firmeza das dúvidas do homem. Ele parecia tão engolido pela certeza de que desistiria no décimo terceiro dia – abandonando a novidade do outro – que não teria forças para abrir a boca gigante do monstro do passado que o mastigava, afastar as presas extravagantes, tomar fôlego e pensar mais um pouco. Não passava por sua cabeça que seria tão simples esquecer o envolvimento inaugural, os carinhos dedicados, o compromisso assumido apressadamente: foi como estalar os dedos, piscar os olhos, calçar sapatos, o rebentar de uma pipoca, como lavar o cabelo, ensaboar o corpo nacarado, odiar um filme sobre zumbis, ajustar os ponteiros do relógio, como um gole de vodka, como um cumprimento furtivo, um Oi nas festas seguintes, foi como respirar. Como tentar esquecer um amor aborrecido, uma experiência de tantos anos com alegrias cheias de hematomas, como organizar na agenda da vida lembretes desafiadores e que jamais serão esquecidos: Não posso esquecer de lembrar sempre dele. Como se a novidade fosse um contratempo.


Disfarçou sua incerteza secretamente, num estilo pop-cult, de quem não quer marido pobre, sem dois turnos de labuta excessiva e com o corpo sem modelações de academia. Vivia suspenso nas lembranças, que poderia tudo agora ser diferente. E teve raiva, uma cólera burra tomava conta do homem, porque poderia ter sido diferente, bem que poderia ter dado certo, quatro anos de afagos e de um amor sem manual de sobrevivência na selva das traições que não se esquece. Entendia-se ainda plural. Duas vezes o mesmo amor antigo. Duas vezes o outro primeiro que o satisfez. Aquele outro que o arrastara para longe dele, que o acorrentou à impossibilidade de querer amar outra vez, aos poucos, lentamente, desabrochando um querer qualquer.

E agora apareceu esse outro homem bom, que era só bom. No entanto, esse sentimento impraticável não chegava a ser uma renovação, não o aproximaria dele mesmo, do outro corpo, nem esmagaria seu passado, não o ajudaria a enxugar os excessos de suas memórias. Não havia prazer em descosturar tais reminiscências, desfazer o sentido de tudo, estender a mão e acolher a nova tentativa, e ceder, ceder, ceder. Para que o impulso adiantasse o amor.

Mas o outro, dos tempos da paixão incurável, lançou-se primeiro no desafio da superação, para curar o corpo que vivia dormente e acostumado: o passado agora se satisfaz com um novo presente.

Alguém não teve tempo de chorar até esvaziar o corpo. Alguém não se explicou com suficiência. Alguém fechou os olhos antes da aproximação. Alguém disse as palavras inadequadas. Alguém está sem entender até o momento. Alguém não vai voltar. Alguém dançou como idiota. Alguém entregou o jogo. Alguém partiu antes do fim.

O final foi pintado com exasperação, como se superar o desejo de treze dias fosse a grande conquista da nova vida livre, aberta e tranquila do homem: Estou bem sozinho, calmo; sair com os amigos, encher minhas convicções de sabores etílicos, sumir de mim por algumas horas, e não justificar a ausência, não explicar meus caminhos: Você chegou ontem. Mas pode ir hoje se quiser.

E o outro foi. Assim, com o querer recente latejando nas mãos.
Foi sem entender, sem mais nem menos.
Assim mesmo: pa-puf.


Despedida em Las Vegas, 1995 (Foto:AdoroCinema)

Raimundo também é passado.


- E aí, cadê o Raimundo?
- Não sei! Acho que está em casa.
- Mas vocês não estão mais juntos?
- Não, não. Não deu certo. Nunca estivemos de fato.
- Mas os olhos de vocês andavam tão cheios de compromisso, uma luz dele te puxava para um centro que, embora eu já conhecesse, parecia mais agradável.
- Isso tudo? Pra mim a impressão foi singular: dias interessantes, sem a grandiosidade que ele inventou. Ahhhhhh!, só não deu certo.
- Como assim? Não deu certo pra ti ou pra ele?
- Ele é um cara bom. Mas sei lá... quero liberdade. Quero pertencer a essa sensação de estar constantemente buscando. Quero o desejo. E não é o momento. Já estou muito escaldado.
- Já ouviu falar naquele papo de que o desejo é um buraco sem fim, que nada que se coloca nele chega ao fundo, ou se sustenta?
- Ora, não é o fim do mundo. Eu só não quis o Raimundo por mais de 12 dias.
- Mas não foi você quem falou em namoro, um compromisso?
- Eu sei. Acho que fui precipitado. Uma empolgação natural, talvez. Mas ele também é cheio de rolo com a família, no trabalho... fala com excesso em alguns dramas que aprendi a superar.
Possui olhos presos no amor.
Uns movimentos exagerados para um caminho que conheço e que não busco agora.
Uma disposição quase subserviente para carinhos que não livram do mal.
Os dedos mostram-se dispostos para cuidar das partes do corpo que adoecem diariamente, que sentem o mundo desabando.
O problema é que ele está preso à doação quase completa: quase enfrenta a mãe para poder acreditar um pouco mais nas próprias escolhas, e reage com inacreditável deslumbramento a qualquer indício de desconfiança: ele diz sim quando a gente só quer que ele fique quieto: sem ligar, sem mandar torpedos, sem escolher filmes sem sentido, sem parecer coisa pequena.
Acho que não estou preparado. Não consigo navegar nas tormentas daquele Raimundo.
- Ele é psicólogo, né?
- É. Faz também especialização em Psicologia Clínica. Não tem que diga. A boca é puro desamparo. Sai pouco de casa e do corpo da gente. É apaixonado por filmes antigos e literatura. E só. E escreve em blog e numa revista eletrônica que está em sua última edição. E só. Eu quero mais. Ou menos.

- E ele é mais ou menos?

- Ele é passado.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Doze dias para o fim.

Dia 1: Qual o tamanho da dor de viver sozinho? Menor que o céu azul, maior que a preocupação do mindinho?

Dia 2: O amor devia começar aos poucos; um jardim de tamanho razoável que comportasse a intimidade de dois grandes universos, com rosas transparentes que se alegram durante a noite (quando os olhos focam a preocupação e a alegria inesperada de uma segunda-feira agitada) e um rio grave com nascente nas dores passadas, percorrendo a nova morada que abriga esse amor que se inicia.

Dia 3: Quanto tempo é preciso para se querer tanto alguém por muito tempo?, sentir a paixão soprar o pó do desgosto e do preconceito? Encher o pulmão de afinidades e coragem, fazer voar a areia da velha ampulheta que calcula o tempo necessário para nosso novo querer?

Dia 4: Quantos dias se passarão pra eu te convencer que minhas rugas são de vergonha e não de uma velhice ainda jovem? E que essas marcas fazem sombra no meu rosto pra esconder os detalhes que denunciam minha imaturidade?

Dia 5: Eu nunca soube acreditar no amor.

Dia 6: Eu sempre quis acorrentar meu coração na irreverência de um querer maior que eu.

Dia 7: Não tenho paciência para as tempestades e o céu negro do sexo descompromissado.
A expectativa me aproxima do desconhecido. O mistério que em mim reside se torna desabrigado; foge do conforto dos meus recantos e se revela uma espécie desprotegida de bicho inseguro, faminto de algum sentimento nobre, luminoso, disponível para a cumplicidade e para as torrentes do compromisso dependente.

Dia 8: E não é que seus confortáveis vinte e quatro anos te afastam da mediocridade tediosa da adolescência pseu-metropolitana de Teresina a qual sempre me vi tentado a aceitar, entender, querer muito, engolir, mastigar, e aprender a conviver com os prejuízos que causam aos dentes?

Dia 9: Senti-me embriagado de seus desejos revolucionários; sua gentileza precipitada ainda me confunde; é que penso que qualquer disponibilidade para a bondade é um ensaio para o amor; e eu, esforçando-me para lutar contra sua juventude de águas poderosas, acabo cedendo e me entregando ao cultivo da possibilidade do novo amor.

Dia 10: Meus vinte e seis anos não me capacitaram a racionalizar. Um cérebro de algodão-doce, e neurônios em calda como se tudo o que eu precisasse fosse um querer coberto de açúcar queimado e ma certeza infinitamente colorida.

Dia 11: Nunca entendi a entrega completa, mas sempre a quis. Vivo dolorosamente as renúncias das repetições de uma vida menor; mastigando os hábitos que me tornam distante. Sinto a vida com um corpo novo, uma reinvenção de mim, [Você já leu isso em algum lugar de um outro alguém? Sentimentos discretos, crocantes, e alguma revelação clichê, mas sempre esperada? – então encaras meu coração como um biscoito da sorte?], engolindo seus ensinamentos inacreditavelmente adultecidos, e corrompendo minhas decisões disfarçadamente adolescentes.

Dia 12: E que se repita a novidade a cada dia, com disposição para redimir nossas falhas; com fôlego para emergir a cada desgosto ou ir mais fundo no envolvimento. Voltar à superfície de ti só pra ter a certeza que vivo mesmo é desse quase amor úmido que me abastece. E que minhas palavras tornem-se as tuas, que tuas qualidades me cubram de bondade, que teus passos me levem à glória, que minha escrita sirva para teu futuro. E que o amor que inventamos nos torne únicos e inseparáveis. Até o próximo mergulho.


Retratos de Família. Foto:AdoroCinema



Dominique aprende a odiar

Eu verdadeiramente não saberia para onde ir se amanhã as coisas continuassem como estavam. Há uma desordem que se abastece de nossa mediocridade; e me incluo, sempre me incluí, nos grupos medíocres. Possuo a consciência de um bicho que se diverte com novelos de sentimentos recentes e agrados reservados. Fico nos cantos limpando minha tristeza com saliva de um bem querer que nunca aconteceu do tamanho certo pra mim. E divulgo as tormentas de se viver no desequilíbrio; e acima de nós o céu apocalíptico, a suspeita da morte pelo fogo divino; e abaixo, o picadeiro com os leões famintos, o povo e a maldade sem misericórdia, e o inferno de nossa realidade de família que não se basta.

Estávamos ligados pelo rancor. Um fio grosso de um metal enferrujado e maleável percorria a casa, mantendo pontos de ligação entre nós, prendendo-nos uns aos outros, e ao passado. Cada um arrastando os grilhões de sua culpa, condenados por infrações de um amor que nunca existiu de verdade. E foi ódio que aprendemos a bem digerir.

Destruímos bons momentos sem reversão. Todas as palavras eram grandes e poderosas chamas que aterrorizavam a estabilidade de qualquer dia menor que não merecíamos. Mas em meio ao caos, às armas que giravam no centro desse monstro de vento, fogo e comiseração furtiva, eu nunca soube destruir ninguém aos poucos ou jogar impropérios cáusticos nos parentes insignificantes que caluniam, que afiam as lâminas escuras da injúria e do ódio assente.

Eu descobri, assim, amar partes de um todo desorganizado, que resiste desconhecendo a paz, o respeito e a sanidade: não mais quero todos os familiares por perto. Acostumei-me a instalar pedaços de paz no inferno; procurando locais arejados no escuro de um lugar que já não existe apenas em mim. O coração deu vida ao desejo de sumir, mas não sei pra onde ir. Nunca soube fugir ou me esconder com eficiência. Sempre estive em evidência, mas sem importância; fácil o lugar para o qual sempre me desloquei, os esconderijos que me guardaram: na superfície de qualquer pessoa que me ocupou por toda a vida.

Costuramos nossas vidas com contrariedades e sentimentos dispersos. Movemos-nos aceitando as colunas de discórdia construídas entre nós para sustentar o céu de uma casa que, se caísse, despejaria demônios e buracos-negros que não nos mobilizariam para a salvação.

Se a casa em que guerreamos sem tréguas pudesse revelar-se, personificando-se em um detalhe razoável do mundo, ou um ser mágico de pedras e voz gutural, conferindo fato ao que é apenas um depósito de sofrimento, ela se ergueria desta terra amaldiçoada, nos mastigaria com a certeza das coisas vivas que tiveram seus interiores molestados, e partiria para o fim do mundo buscando desbravar possibilidades de uma nova família.

Não sou frágil pelo nome Dominique. Carrego culpa pelas mortes que não experimentei. Se eu me chamasse Devorah, algo hebraico, algo abençoado, talvez tudo soasse como um sacrifício plausível. Talvez eu corresse sem desespero, apenas para emagrecer, descarregar dor e culpa com a mesma devoção. Mas não. A sensação quando estou correndo, quase numa fuga, é esta: meu coração esta parando. Meus radicais, os livres e os que me fazem deprimente, destruindo-se, envelhecendo minha alegria; meu coração mais rápido, eu não consigo ouvi-lo, a dor vai acentuando-se o sol se pondo tudo ficando gelado o suor ainda está quente como se fosse sangue aquecido este que ferve no meu centro ainda existe um sentido em mim tenho poucas direções mas um sentido e não preciso voltar só tenho a roupa do corpo. Estou morrendoperdidamasviva. Esóaprendiaodiar. Até agora. Apenas ir cada vez mais longe, como se fosse leve e útil sentir dor por todo o corpo, como se fosse doce e prudente pensar no futuro como acaso ou a medida certa de esforço, sacrificios, pouco sexo e orações.
Como se eu fosse simplesmente D...
E...
S...
A...
P...
A...
R...
E...
C...
E...
R...
no próximo passo. No próximo quilômetro. No estalar seguinte dos ossos.

Como se amar fosse apenas um estremecimento.

E o perdão acontecesse num piscar de olhos.

E o sofrimento fosse apenas uma desorientação.

E a família: apenas um pesadelo.